set 2006
Por João Paulo Mehl
Diz a lenda, que das minas de Potosí – sudoeste boliviano – poderia iniciar uma ponte que ligaria o País latino americano à Espanha, com os mais de 16 milhões de quilos de prata extraídos desta mina e levados para enriquecer o país explorador. Esta é apenas uma história, mas representa o que aconteceu e acontece a mais um país colonizado, explorado, subdesenvolvido e sul americano desde sua “descoberta” pelos ambiciosos aventureiros do velho continente. Riquezas naturais usadas sem indenização nem retorno social para seu povo.
Em julho de 2005 tive a possibilidade de visitar este país, e por quase um mês conheci um pouco de sua realidade pela visão dos movimentos sociais; organizações sindicais, estudantis, partidos políticos e pelos incansáveis debates em praças, ônibus, táxis, universidades, manifestações e em todos os cantos do país vizinho que mostrava uma efervescência política apaixonante. A revolta pela desigualdade era clara, grandes mudanças eram iminentes.
Transformações radicais na sua condição até então subjugada por empresas e países dominantes – e incluo o Brasil nisto – que utilizam suas riquezas para impor-lhes uma eterna dependência, era questão de tempo.
Na ultima semana vimos o Presidente boliviano Evo Morales cumprir sua promessa de campanha de Nacionalizar os recursos naturais deste país em nome da sobrevivência digna de seu povo e da soberania Nacional!
Evo fez o que seu povo exigiu, Justiça! Fez, o que fizemos 50 anos atrás quando lançamos a campanha “O PETRÓLEO É NOSSO!”, orgulho nacional pelo sucesso que fez surgir a PETROBRÁS, maior e mais bem sucedida empresa brasileira, que hoje nos orgulha com a AUTO SUFICIÊNCIA em petróleo. Lembramos também, a nacionalização do petróleo Mexicano em 1917 seguida da expropriação das empresas estrangeiras, na Argentina em 1957 e Venezuela em 1975.
As oposições brasileiras fazem uma defesa patriótica da “propriedade brasileira”, uma defesa da Petrobrás enquanto empresa pública, financiada pelos impostos do povo brasileiro, mas que estranhamente, ou não, defendeu nos tempos do Presidente Fernando Henrique Cardoso a aprovação da Lei n. 9478/1997, que acabou com o monopólio público de exploração do petróleo e permitiu a venda de ações da Petrobrás a estrangeiros, que hoje controlam boa parte da companhia, o mesmo grupo que aplaudiu a venda da Vale do Rio Doce e de muitas outras privatizações. Com isto, temos uma empresa de mercado, que pratica preços de mercado, portanto, deve pagar preços de mercado para o Gás boliviano.
As especulações em torno da expropriação do patrimônio da Petrobrás ou ao não fornecimento e aumento do gás para as indústrias e o consumidor brasileiro estão caindo por terra nas ações e acordos dos Governos Brasileiro e Boliviano. Os resultados só a história poderá julgar, mas a certeza de justiça e integração latino americana ficam claras na atuação diplomática brasileira.
Evo agiu respaldado pela pressão popular que em 2004 por 92% dos votos apoiou nacionalização e dos 54% de eleitores que votaram acreditando nas reformas básicas para a sobrevivência do país. Fez pela consciência de sobrevivência latino americana, pois se não fizesse, caía, pois seguramente a população boliviana não lhe daria sustentação para enfrentar a centenária elite política daquele país.
Contudo, vemos uma atuação firme do Presidente LULA, contrapondo a demagogia eleitoreira das oposições, defendendo a soberania dos povos latinos americanos e colocando o interesse dos oprimidos acima dos do mercado.
Eduardo Galeano já dizia em seu livro As Veias Abertas da América Latina, “Este é o país (Brasil) que constitui o eixo da libertação ou servidão de toda a América Latina”, o destino cabe a nós decidir.
Sem dúvida nossos companheiros bolivianos merecem receber de volta tudo que a história lhes privou. A humanidade tem uma dívida com a América Latina, especialmente com a Bolívia. Vamos a luta!! Pelo respeito a soberania dos povos!